domingo, 16 de outubro de 2011

Esse é o ultimo choro antes de tentar ser feliz.

Fechava os olhos freneticamente, a visão girava. Mirou os olhos para o céu e sentiu o corpo quase que perdendo o equilíbrio. Por Deus, não devia ter bebido tanto… Que exagero. Não ia ajudá-lo a tirar aquele sorriso da cabeça. […] Que droga. Já nem sabia mais o que falava, o raciocínio estava lento; e completamente ao contrário do que queria, a saudade aumentou. A imprudência apurou e o medo foi embora. Enfiou a mão no bolso e puxou o celular com força. Puta merda, não enxergava nem o “Tim” na tela do aparelho… Ainda bem que sabia de cor como fazia pra chegar à lista de contatos.

— Que tá fazendo, João? — Ouviu uma voz que nem era capaz de reconhecer. Talvez do Pedro, ou do Gustavo… Enfim, não fazia diferença.

Fez um movimento meio estranho com as mãos e ignorou a pergunta; estava concentrado demais. Rolou os dedos pelas teclas e finalmente enxergou o nome “Júlia” entre aqueles tantos outros. Sem pensar, apertou o botão para ligar e apoiou a mão na orelha de uma maneira confortável. Respirou fundo e expirou ansiosidade; o coração já pulsava forte e, bom… O medo começava a voltar.

— Alô.

Meu. Deus. Que porra estava fazendo?! Era a Júlia, cara… A Júlia! Nunca mais ia beber na vida, e isso era fato. Já estava se arrependendo, e não fazia nem sequer um minuto que a ligação havia sido feita.

— Alô-o? Alguém aí? - A voz doce soou do outro lado da linha. Devia estar parecendo um psicopata, já que a garota só ouvia sua respiração atenuada na ligação.

— É… Oi. Sabe quem é? — Respondeu com um tom fraco, nervoso.

— […]

— Sua vez de não parecer psicopata, Júlia.

— Desculpa.

E… Ela desligou. Isso, perfeito João. Você é realmente muito esperto. Quem mandou inventar de ligar pra tua ex? Quem deixou? Quem foi o idiota que pensou em fazer isso? Você, né, mas é claro. Você é sempre o idiota, seu otário. Tem que aprender a deixar de ser imbec… Opa, tá vibrando. O celular tá vibrando. Quase o soltou no chão pelo susto que levou, mas depois abriu um sorriso rápido no rosto e atendeu. Ou quase isso. Porque… Ficou em silêncio.

— Tá me ouvindo?

— Tô. — Ele respondeu com o coração na boca.

— Então… Desculpa de novo. Eu fiquei nervosa na hora e agi sem pensar. Mas aí depois fiquei com saudade. — Falou a última parte baixinho.

— Eu sinto isso bastante ultimamente.

— É… Faz tanto tempo que a gente não se fala que… Sei lá.

— Sinto principalmente da tua voz. E do teu jeito, do teu sorriso…

— Você tá bebado? — Riu.

— … Dos teus olhos, do teu abraço. De você, Júlia, que saco.

— Desculpa.

— Pelo quê? Por não sair da minha cabeça?

— Eu…

— Tu não tem culpa. Quem tem que pedir desculpa sou eu.

— Então por que eu me sinto tão culpada?

— Porque as coisas não eram pra estar assim, e tu sabe disso.

— Como acha que deviam estar?

— Que nem eram antes.

— […]

— Eu não consigo lembrar em que momento tudo passou a dar errado, não sou capaz de dizer o porquê e nem a causa.

— As coisas de uma hora pra outra simplesmente mudaram. Isso acontece.

— Mas não era pra ter acontecido.

— E você não fez nada pra mudar.

— Autch. Usar palavras do mesmo jeito que se usam facas devia ser proibido.

— É só a realidade.

— Dói do mesmo jeito. Depois de tudo, eu só devia ir embora e te esquecer. Não te ligar em uma noite de quarta feira em que não fui trabalhar e enchi a cara. Eu devia ter feito tanta coisa, né Júlia? Tanta coisa pra te afastar de mim. O problema é que eu não consegui. Ou melhor, eu não quis. Porque ia doer mais ainda te ver distante. Então para de falar sobre como eu agi errado e sobre como eu fui um otário, porque eu já sei de tudo isso. Sei tanto que vim correr atrás de ti, por mais que você nem lembre mais de mim.

— Você acha mesmo que…

— Não, não lembra. E nem vem me dizer o contrário.

— O problema é que “o contrário” é a verdade, João. Eu penso em ti muito mais do que o que devia pensar, e eu odeio isso. Eu tenho outro cara e ainda penso em você. Eu tenho o certo em mãos, mas ainda prefiro o errado… Por que diabos você sempre me puxa pra perto de você? Mesmo quando eu quero ficar longe?

— Olha, eu não sei se sorrio ou se choro com isso que você falou.

— […] Por que?

— Tu tem outro? Que história é essa? — Ela soltou uma risada baixa, triste.

— É.

— Desde quando? — Sussurrou.

— Semana passada fez dois meses.

— E o nome? Idade? Trabalha em que? Porra, me conta isso direito pra eu fingir que não me importo tanto. E responde logo, vai.

— É incrível como você tem um jeito só teu.

— Para de enrolar.

— E como você fica tão… Lindo com ciúmes.

— Ai, minhas bolas.

— Que saudade, cara.

— Vai pro inferno, na boa. — Riu — Dá pra responder as minhas perguntas, por favor? Grato.

— Eu não quero falar sobre ele, seu idiota. Até parece, né. Imagina se eu quisesse te obrigar a falar sobre todas as gurias que tu já pegou nesses onze meses? O que tu faria?

— Eu diria como eu procurei você em todas elas.

— […] Você nunca vai me deixar viver a minha vida sem pensar em ti durante 24 horas por dia, né? Sabe quanto tempo isso que você falou vai ficar na minha cabeça? — Ele deu uma gargalhada longa e depois suspirou.

— Eu gosto de ser idiota.

— E eu gosto quando você é.

— Sei que gosta… Lembra que há menos de 2 minutos eu estava irritado com você?

— Lembro. Só porque eu tentei seguir a minha vida.

— É, conversar contigo me faz esquecer de coisas ruins. E é bom que saiba que eu tô feliz pra caralho agora que sei que você tá tentando, não conseguindo.

— Pensei que já soubesse antes.

— Não… Eu pensava que era só eu. Isso meio que fodia comigo.

— Nunca foi. Acho que eu sinto a tua falta desde o minuto em que tu disse que tinha acabado. — João riu.

— É, eu realmente disse isso, mas nem sei o porquê. Eu sabia que não tinha terminado. Não pra mim.

— Nem pra mim.

— Qual é, Júlia… Você tá complicando as coisas.

— Como assim?

— Se liga, né. Tudo o que eu sinto, tu sente também. É tudo recíproco. A saudade, a falta e… O sentimento. E se a gente sente igual, por que ainda estamos separados? É isso que fode tudo. Não tem explicação. Não é “as coisas deram errado” que vai responder a pergunta.

— Mas… João, eu tô com outro.

— E daí? Tu não ama ele.

— Amo.

Silêncio.

— Eu segui a minha vida. Tô tentando, pelo menos. Meu “nós” é com outra pessoa agora; o nosso é passado. Acabou. Terminou. Não devia, mas aconteceu. E aí eu aprendi a ir em frente, ainda que tu me puxe pra junto de ti às vezes. Tipo agora.

— Eu não quero ficar assim contigo.

— Não precisamos.

— Se for pra deixar do jeito que tá, vai ficar pior ainda. Eu te conheço. Tu vai se afastar, fingir que nada aconteceu. Amanhã nem vai mais lembrar dessa ligação. Aí eu vou sentir uma puta falta tua de novo, enquanto tu vai estar com o teu bonitinho aí. A verdade é que tu me superou, mas eu ainda não fui capaz de fazer isso contigo. Tu ainda tá muito viva em mim, Júlia. Caralho.

— Ai, que engraçado.

— O que?

— Tu fala como se eu realmente tivesse te superado, né. Eu acabei de admitir que lembro de ti muito mais do que o que devia e tu vem me falar isso?

— Se tu realmente não tivesse o feito, não conseguiria estar com outro agora.

— Mas você já esteve.

— Não.

— Nunca?

— É. Não consegui porque sempre pensava em ti quando estava com ela.

— […] Desculpa.

— Para de falar isso, tu não me deve desculpas. Não me deve nada.

— Tudo bem. — A voz se mostrou triste.

— Ei… Eu vou me arrepender por dizer isso, mas eu ainda te amo. E vou continuar durante um bom tempo.

— Eu também.

— Também me ama?

— É, também te amo. — Ele riu.

— Só queria ouvir essas palavras. Saudade, Júlia. Muita. Tenho que desligar agora.

— […]

— Boa noite, te cuida.

— Tu também. Prometo que vou tentar pensar menos em ti.

— Por que?

— Porque é melhor.

— Tu não é a melhor pra mim, e eu vou continuar pensando em você com a mesma frequência. Talvez um pouquinho mais.

— Larga a mão de ser idiota, João! — Riu — Tu nem vai lembrar disso amanhã. Tá bebado, cara.

— Vamos ver, então. Te encontro por aí?

— Com certeza.

— Não me esquece.

— Pode deixar, não vou.

— E… Me espera. Por favor.

Ligação terminada.

Nenhum comentário:

Postar um comentário