quinta-feira, 5 de abril de 2012


“Por pouca-vergonha da minha parte, deixei de me questionar ou até de ter desejos ou sonhos. Não sentia coisa alguma, ou sentia tudo. Passei a tratar tudo como desnecessário pra mim, insignificante. Nada me faltava ou tinha, era tudo totalmente sem importância. Só tinha vontade de me deitar na cama, não pensar em nada e dormir por longas horas. Passei a sentir frio vinte e quatro horas por dia, frio de manhã, frio de tarde, frio de noite, frio ao acordar, frio ao dormir, frio todo minuto, segundo, hora. Frio. Frio de deixar os braços arrepiados e a boca trêmula e seca. Frio se chovesse, frio se fizesse calor. Em qualquer hipótese, frio. Não saía debaixo das cobertas grossas, dias e dias assim. Engraçado que até a vizinha veio comentar com mamãe que deveria me levar ao médico para ele me passar um remédio, chegou até a dizer que o que eu tinha era doença! Doença porra nenhuma, eu tinha era saudade. Saudade dos meus detalhes perdidos e dos meus dias de alvoroço, saudade da minha liberdade, da minha confiança em si, em mim, das minhas tolices de boca pra fora, das minhas crises de riso, saudade das minha desobrigações e das minhas tardes despreocupada com a vida, saudade de ser sonsa comigo e de fingir não saber nada. Saudade do meu colo, de me pegar no flagra planejando um futuro incerto, saudade de reviver o sorriso mil vezes ao dia. Saudade do meu espaço pra perguntas besteiras. Saudade de fazer falta. O que eu tinha era saudade. Doença? Isso não, era saudade mesmo. E saudade não se cura com médico.”
Ariel S.  

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