domingo, 27 de maio de 2012

Invisible prince


“E linda, tu vinhas. E por um instante, o tempo passava arrastando. Tão bobo, lá estava eu, sorrindo de novo ao lembrar de você. E linda, tu vinhas, em lembranças, mas vinhas. Trazia consigo, um sorriso. — Carregado de saudades e nostalgias. Tão lindo. Teus lábios finos, tua voz com intonação tão doce, teus olhos feitos com todo o cuidado em cada detalhe. Teu cabelo longo, e tuas bochechas grandes. (…) Me pego te esperando, voltar de um passado quase enterrado. Enterrado no teto do quarto, onde só bastava que me deitasse pra que você viesse a minha cabeça. E lá vinha você, me trazendo o passado inteiro, ou me puxando pra ele. Me prendendo, aprisionando lá. Com todas aquelas lembranças, que de tão boas, chegam a machucar. (…) Lembra de quando a gente se conheceu, amor? Era de noite. Na praia. Você estava lá, sentada na areia, chorando. Aí eu me sentei do seu lado e disse: “Tá frio, sabia?” Você não conseguia dizer nada e quando tentava, a voz saia trêmula, chorando. Então segurei seu queixo, limpei suas lágrimas e perguntei:

— Melhor?

— Acho que não tem mais como ficar bom.

— Conhece o trem do tempo?

— Hã?

— Sabe, ele leva tudo com ele. As mágoas, os amores, os sonhos, as pessoas. As dores. E traz novas também. Ele nunca para. As vezes passa mais rápido, as vezes mais devagar. Isso você quem decide.

— Mas dessa vez nem tempo eu tenho.

— Sempre tem. Vai ficar tudo bem, aposto.

Você ficou com a cabeça virada, deveria estar chorando mais um pouco. Então me levantei, peguei um graveto no chão e escrevi na areia: “Sorria.”

— O que tá escrito?

— Vem ler. Você se levantou e leu. Riu, olhou pra baixo rindo, depois pra mim.

— Não deveria estar sozinha aqui assim, chorando.

  — Não deveria nem estar aqui.

— Se não estivesse, eu não teria ganhado um sorriso tão lindo. Acho que deveria sim. Por algum motivo.

Você sorriu de novo. Parecia decepcionada com alguma coisa. Então te convidei pra vir até aqui, na minha casa. E você aceitou. Sabe, no começo pensei que você era louca, não sei. Aceitar um convite assim, de um estranho, que estava andando na praia de noite e te chama pra ir na casa dele. Podia ser um estuprador. Mas você parecia tão desesperada. Então você foi, tomou um banho, vestiu uma camisa minha e uma cueca. Saiu pela porta do quarto e pude te ver da sala. Comecei a rir. Você riu também. Parecíamos amigos de…sei lá, anos. Aí você deu distância, veio correndo e pulou no sofá que eu tava sentado. E ali nós ficamos a madrugada inteira. Assistindo filmes. Não assistimos nenhum romance. Eu gostava de romances, na época. Você achava aquilo tão meloso. Aí vimos uns três filmes de ação e caímos no sono. Apartir daí, me desliguei do mundo. Faltei uma semana de emprego, só acordava tarde e quase nunca saia de casa. E quando saia, era com você. Você ficou lá por uns dias. Parecia loucura, parecia desses filmes aí, de amor. (…) Eu me apaixonei tão rápido. (…) Sabe, eu sinto falta. De você, do que eu era com você. Do que éramos juntos. De tudo. De como agíamos como crianças em corpos adultos.  (…) Porque as coisas boas são tão díficeis de esquecer? Tipo…você. Nas últimas semanas, eu não estive vivo. Nem morto. Sabe, eu só não tava vivendo. Só tava preso no passado. Ainda estou, admito. Não faço a barba, sempre sujo a camisa de café, faço tudo errado no emprego e só sei te escrever essas cartas, que nunca mando. Que nunca faço nada. Que nunca me ajudam a tomar uma atitude. (…) Amor, como foi que tudo acabou? Assim, de uma hora pra outra? Quando foi que…Nós, começou a ser Eu e Você, separados? Hein, amor? Ainda sou teu. (…) Sabe, queria conseguir te fazer cartas. Não essas, chatas e melosas. Mas te contando o que acontece, sem você aqui. Mas o problema é que nada acontece. Nada, amor. É que quando você se foi, levou parte de mim. E acho que essa parte incluia os sorrisos que não dou mais, os pensamentos que não são você, a vontade de sair da cama quando acordo. Amor, a gente já teve uma dessas, né? Assim, de nós, virar eu e você. Você lembra? E a gente voltou. Lembra como foi? Destino, eu acho. Eu estava vagando por aí, de noite. A gente não se falava a meses. Aí quando dobrei a esquina, te vi. Tão linda. Fingimos que nada tinha acontecido, parecíamos crianças. Mas foi melhor assim. Te chamei pra dar uma volta, perguntei como ia a vida, me respondeu num tom tão triste. Sabe, amor…A gente sempre foi assim, bagunçados. Você sabe. Sempre soube. Cheios de idas e vindas. Sempre tão complicados, mas simples. A gente se entendia. Sabe, eu nunca vou dar certo com outra pessoa. Não tanto quanto dava com você, amor. (…) Sabe o Kevin? Aquele meu amigo? Que sempre vinha aqui em casa e ficávamos nós três jogando videogame e você sempre ganhava de nós? Ele disse que eu era mais feliz quando estava com você. Ele disse que agora eu não sou nada. Sabe, agora, sem você. Acho que você faz mais parte de mim, do que eu mesmo. E agora que você se foi, eu sou…Sei lá, quase nada? Sabe, o Kevin disse também, que quando o trem do tempo não vem, a gente tem de tomar uma atitude. É, acho que ele tem razão.

— Alô, amor?”

Pedro Rocha

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